Jornalismo e política – o falso mito da isenção

Por Edemilson Paraná

Evasividade, superficialidade, distorção, crítica pela crítica. Disso, sabemos, o jornalismo está cheio. Grande parte desses problemas, não raro, advém de uma compressão idealizada (e portanto errônea) em relação ao papel do profissional e o trabalho de construção da notícia, o velho “mito da isenção”.

Como bem discute Bourdieu em sua obra “O poder simbólico”, tão mais eficiente é um poder quanto, de tão legitimado e naturalizado, menos se fizer percebido.Desse modo, o poder é aceito por não percebido e percebido por não aceito. Poucas definições descrevem tão bem o papel da imprensa na sociedade contemporânea quanto essa.

Ainda para Bordieu, um “discurso competente” é aquele que por razões culturais, sociais, políticas (que em última instância acabam por se tornarem razões ritualísticas, quase mágicas) é credenciado pela sociedade com um grau de veracidade, aceitação e respeitabilidade acima dos demais. É portanto um discurso considerado, a priori, como “competente”. A mídia, na sociedade contemporânea, é portadora do “discurso competente”.

Longe de discutir a dimensão filosófica e o desenvolvimento histórico do discurso liberal que sustenta o mito da isenção tão bem apresentados por Habermas quando da discussão do nascimento da esfera pública burguesa, chamo atenção para os problemas advindos dessa noção hoje quase hegemônica sobre o papel do jornalismo.

Para além da crítica político-ideológica, o mito da isenção cai por terra já na análise da narrativa. Organizar narrativamente o mundo é o elemento fundante da compreensão racional humana, essencialmente discursiva. Isso, claro, carrega de subjetividade o relato desde o momento da escolha de uma palavra em detrimento de outra até a hierarquização do que é ou não mais importante no discurso.

Para além disso, em uma sociedade midiática e mediada, de massas, a imprensa não representa a realidade, ela institui uma nova realidade a partir de tal representação. O debate político na democracia representativa se dá sobretudo na mídia e não existe sem ela. Mais do que arena desse debate, ela imprime seus próprios valores, pontos de vista, determinando assim, de modo ativo, o desenrolar dos acontecimentos e o rumo das decisões na sociedade.A mídia é um poder que influencia de modo determinante os rumos da sociedade sem ter sido eleita para tal, nem regulamentada como tal, ainda que responda a interesses específicos que jamais se auto-regulamentarão de modo equilibrado em relação aos demais interesses sociais.Daí a importância da regulamentação da mídia e do direito à comunicação.

Mas em termos práticos (a pergunta mais feita pelos colegas) o que isso significa para nós jornalistas? Significa que o que importa realmente é a consciência do papel de nosso trabalho como catalisador do debate na esfera pública e não como “a verdade isenta”. Conhecendo o poder simbólico da mídia, seu papel na sociedade, perigos e problemas disso advindos, estamos mais credenciados a deixar de lado o mito da isenção para abraçar o conceito da responsabilidade jornalística, derivado em última instância da boa e velha honestidade intelectual.

Entendendo que nosso trabalho não é “a verdade”, mas apenas um modo de apresentá-la (e representá-la), passamos a ter outra visão sobre o que é  isenção no jornalismo. E derrubado o mito liberal da objetividade, estamos finalmente livres para fazer um trabalho honesto, que se permita ser questionado abertamente em suas premissas. Nenhum fato é apresentado sem premissas que organizam sua inteligibilidade.Deixar claro ao leitor quais são as suas é papel do repórter sério.

Se as premissas não estão claras, os fatos serão manufaturados ao bel-prazer dos interesses e conveniências político-economicas e disso, sabemos, o jornalismo está cheio. Enxergar o próprio fato como premissa é um erro; o erro que parte do mito da isenção e que, naturalmente, serve a manutenção de um status quo desigual e ao favorecimento do poder de poucos em relação a muitos.

Infelizmente as faculdades de jornalismo não tem chamado a atenção de seus estudantes para a questão. Pressionados pelo mercado e pelos próprios estudantes –ansiosos em ganhar para ontem um lugar ao sol no reino da reprodução técnico-jornalística– os currículos acadêmicos vêem minguar a cada reforma o número de disciplinas ligadas à formação cidadã e direito à comunicação e à dimensão teórico-epistemológica da comunicação para não falar da completa inexistência de disciplinas ligadas à História, fator determinante na compreensão crítica do desenrolar dos fatos. Um erro gravíssimo, na medida em que forma profissionais que servirão de modo acrítico a uma imprensa crítica. Vemos assim, a função social e intelectual de um curso idealizado para ser universitário se perder na ânsia da prática irrefletida de um curso desejado para ser técnico. Uma pena.

twitter: @parana_

About these ads
Publicado em Uncategorized por Edemilson Paraná. Marque Link Permanente.

Sobre Edemilson Paraná

Jornalista, formado pela Universidade de Brasília. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados e no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Na UnB, foi bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIC-UnB), membro do projeto de Extensão Comunicação Comunitária, integrante do Centro Acadêmico de Comunicação Social e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães.Como freelancer, escreve para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atualmente integra os grupos de pesquisa Narrativas Jornalísticas (FAC-UnB) e Cultura Digital e Democracia. É militante do grupo político Brasil e Desenvolvimento.

2 respostas em “Jornalismo e política – o falso mito da isenção

  1. Eu até concordo com você em relação a necessidade de acabar com o mito da isenção. Mas também acho um mito este de honestidade intelectual. Assim como de que é na mídia que acontecem os debates.

    O problema é que os jornalistas não querem mediar o debate mas serem os próprios debatedores. A opinião não se forma nos jornais mas nas pessoas. O debate não acontece na mídia mas dentro das casas, igrejas, clubes e comunidades. Os jornalistas acham que as pessoas não pensam e que devem pensar por elas.

    Estão errados. Enquanto pensam isto as criticas ao presidente sobem e sua aprovação do presidente sobe. O apoio escancarado ao candidado da oposição sobe e sua aprovação cai.

    A mídia só conseguiu se descolar da opinião pública. Tornar-se inútil para nós.

    Falta aos jornalistas uma lição básica sobre comunicação como já dizia a vovó: temos duas orelhas e uma boca pra ouvir mais do que falamos.

    Os jornalistas seriam muito mais úteis se em vez de só publicarem o que pensam trouxessem de cada questão dois especiaistas de cada lado. Cara a cara. Prós e contras. Em vez de se auto proclamarem formadores de opinião e descartarem os especilistas. E entrarem em uma guerra não declarada contra outros jornais que a população pouco pode acompanhar.

    A isso eu chamo de isenção e de comunicação.

    Esta simples mudança de metodologia faria vender mais jornais, aumentaria a credibilidade da informação e contribuiria mais para a democracia do que o modelo que vemos hoje.

    Mas relaxe. Em poucos anos a interner vai fazer morrer muitos grandes jornais e as coisas vão mudar.

  2. Pingback: Tweets that mention Jornalismo e política – o falso mito da isenção « Brasil e Desenvolvimento -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s