Da Lama ao Caos – conceito, cidade e cena 20 anos depois

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Dizem que para um álbum virar clássico, ele deve permanecer atual, mesmo com o passar do tempo. Com os 20 anos de “Da Lama ao Caos”, estreia de Chico Science e Nação Zumbi, lançado em abril de 1994, tirei o encarte do armário e fui ler o famoso manifesto “Caranguejos com cérbero”, escrito por Fred Zero Quatro dois anos antes, em 1992, pedra “inaugural” do polimorfo Mangue Beat.

É foda notar como diversos temas que estão nos rolês contemporâneos já pulsavam com toda vivacidade no texto, principalmente quando se tem em conta que o problema da “cidade” é o principal eixo articulatório da crítica e das possíveis saídas. A Recife, descrita na segunda parte do manifesto como a quarta pior cidade do mundo para se viver, serve de referência da metrópole que carrega consigo uma cínica noção de progresso, gerando miséria, desemprego e caos urbano.

Mas é dessa cidade, anárquica em explorar, que nasce “A Cena”: energia na lama que impede a depressão crônica dos cidadãos. Como os enfrentamentos que se colocam hoje ao modelo de cidade docilizadora, essa cena é descrita como uma rede (núcleo) de pesquisa e produção capaz de gerar ideias e novas apropriações do espaço público. Midialivrismo, ocupação político-festiva da rua (dos isoporzinhos aos blocos de carnaval politizados), comunicação não-hegemônica, sexualidades alternativas, perifa, outras subjetividades urbanas, reutilizações do cotidiano: 2014? sim, mas já estavam ali nas fraturas expostas pelo Mangue Beat. Como diz o próprio texto:

“Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em quadrinhos, tv interativa, anti-psiquatria, Bezerra da Silva, Hip-Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência”.

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Passando para o próprio álbum, a atualidade é percebida na apropriação e reestruturação não linear da linguagem; na abertura de novos canais e meios de expressão e de crítica; na modernização do passado, das formas de resistência e das narrativas; na apropriação de tradições musicais a partir da sedimentação com o novo; e na mistura e desconstrução de diversos sentidos e referências (tudo no aqui e agora). É um deslocar de fronteiras: urbanas, musicais e da “razão”.

A clássica “A cidade” dá o tom das ideias, ao abordar o fato de como as formas de organização coletiva podem enfrentar o cotidiano de concretos levantados por pedreiros suicidas. As ideias também estão no banditismo que reflete as contradições de classe à brasileira, a qual se materializa na construção de inocentes como bandidos, no corre para comer um pedaço de pão todo fodido e na polícia como “pacificadora” e agente de controle social. Assim como elas estão nas dores da carne, que fazem homens e mulheres se movimentar, pois é com o bucho mais cheio que começamos a pensar: simbora para a rua, que me organizando eu posso desorganizar e que desorganizando eu posso me organizar (e essa simplicidade sobre o óbvio vale mais do que qualquer tese sobre junho).

20 anos depois, “Da Lama ao Caos” lateja o presente ao carregar, em forma de música, as maneiras de realizar o embate contra um modelo de cidade (des)funcionalizado e estagnado, que se mantém, forçosamente, através da reprodução, da categorização, do encaixotamento, da espacialização, do atrofiamento de artérias e da minimização do espontâneo. O caos em rede como contrahegemonia perante a felicidade racional planejada e controlada por antidepressivos e estimulantes. A cidade dos caranguejos; dos produtores culturais; dos/as artistas de rua; dos/as batalhadores/as que dão valor de uso ao espaço público; dos/as construtores/as do urbano contra a vida de um “espaço perfeitamente ordenado e depurado de todo acaso, livre de tudo que seja fortuito, acidental e ambivalente” (BAUMAN, “Globalização: as consequências humanas”, p. 47, 1999).

O Mangue Beat talvez seja o primeiro rompante, na grande cena musical e cultural brasileira, a articular discursivamente as novas formas alternativas de viver e produzir em um mundo com crescente dinamicidade comunicacional e de fragmentariedade dos “escapes”. Sua atualidade está em antecipar novos tempos e reestruturar contemporaneamente velhas resistências. Assim como também está em retratar e construir uma narrativa sobre a cidade como “centro das ambições”, lócus dos conflitos sociais e fonte, sempre rica em “matéria orgânica”, de lutas e de construção de outros saberes.

O presente reverbera no tripé “o conceito, a cidade e a cena”, marcos fundamentais da tensão entre tentativa de homogeneização e universalização frente a teimosia daqueles/as que seguem na dispersão, na elaboração diária de tradições alternativas ao jardim da razão oficial, na ressignificação daqueles signos (“notas”) que aparentemente estavam estáveis até serem reapropriados pelos/as subalternizados/as.

Lei Antiprotestos é derrotada no Chile, e segue a luta pela Assembleia Constituinte

Foto de Santiago Arcos.

Foto de Santiago Arcos.

Aconteceu hoje, em Santiago, a primeira manifestação multitudinária durante o governo da coalizão “Nueva Mayoría”, presidido por Michelle Bachelet, recém iniciado.

Mais de 40 organizações – ecologistas, LGBTs, feministas, indígenas, antiproibicionistas, de imigrantes, de trabalhadore(a)s, de ateus, de portadores de necessidades especiais – convocaram a “Marcha de todas as marchas”. Múltiplas demandas e 180 mil pessoas tomaram as ruas de Santiago. Porém, essa diversidade de lutas buscava, por meio da marcha, um mesmo objetivo central comum: a convocação de uma Assembleia Constituinte, desde abajo, com intensa participação popular. Vejam mais em: marchadetodaslasmarchas.cl/

Vige no país, ainda, a Constituição neoliberal e autoritária outorgada por Pinochet em 1980. Nos últimos anos, e em especial a partir da forte mobilização de massas e politização do movimento estudantil em 2011-12, fortaleceu-se a luta pela Assembleia Constituinte, por outro modelo de Estado, de economia e de sistema político.

“Encapuchados”, “Black blocs” e violência policial

Curiosamente, entidades tradicionais como centrais sindicais e – surpreendentemente – a CONFECH (Confederação de Federações Estudantis) não participaram da convocação da marcha de hoje.

As semelhanças com as recentes manifestações “pós-junho” no Brasil, apesar das diferenças marcantes entre as histórias e situações dos dois países, não param por aí. A marcha de hoje foi pacífica, mas pequenos grupos de “encapuchados” (os “mascarados” chilenos) entraram em confronto com a polícia. Como no Brasil, os “carabineros” chilenos são um entulho autoritário (inclusive tomaram parte ativa no golpe de 1973) e aproveitaram o suposto pretexto para dispersar o conjunto da manifestação, como se vê aqui, no depoimento de um dos líderes da Marcha, Rolando Jiménez, dirigente do Movimiento de Liberación Homosexual - que repudia a ação dos encapuchados, mas ainda mais, obviamente, a da polícia.

Quando estive no Chile, no primeiro semestre de 2012, participei de três manifestações multitudinárias convocadas pelo movimento estudantil, e esse padrão costumava repetir-se: normalmente ao final da marcha, pequenos grupos de “encapuchados” entravam em confronto com a polícia, que aproveitava o quanto podia para dispersar o conjunto do(a)s manifestantes.

A derrota da Lei Antiprotestos no Chile

Não entrarei no mérito das ações desses pequenos grupos de modo genérico, embora pessoalmente não seja entusiasta deles. O inaceitável é que, como no Brasil, não apenas a polícia, mas também amplos setores da mídia e do sistema político têm buscado utilizá-las como pretexto para a criminalização dos protestos. Lá no Chile, a famigerada “Lei de Preservação da Ordem Pública”, conhecida como “Lei Hinzpeter” ou “Lei Antiencapuchados” (os “Black Blocs” chilenos…), foi concebida pelo então Ministro do Interior Hinzpeter e enviada pelo governo Piñera ao Congresso em 2011, no auge dos protestos da juventude (crescentemente endividada pelas políticas econômicas e “sociais” neoliberais) por educação pública, gratuita e de qualidade, e pelo fim ao lucro na educação.

Após a intensa e ampla resistência social, em especial do movimento estudantil, a Câmara dos Deputados rechaçou a Lei  em dezembro do ano passado, por 51 a 43 votos, já após a vitória eleitoral de Bachelet. O Ministro de Interior de Piñera, de saída do cargo, disse que o novo governo sentirá falta da Lei. De fato, não seria de se estranhar: é importante lembrar que em seu governo anterior, a Presidenta “socialista” utilizou a lei antiterrorista para reprimir a luta dos indígenas Mapuches…

[O momento político é outro, no entanto, e sua atual coalizão governista está um pouco mais à esquerda do que antes, respondendo à conjuntura pós-movimento estudantil de 2011, que provocou considerável fissura na hegemonia neoliberal imposta ao país. Bachelet se diz arrependida de ter usado a Lei Antiterrorismo contra os Mapuches, em seu outro governo. Porém, embora ainda no começo, nada indica que o governo "em disputa" será hegemonizado pelas forças de esquerda que o compõem, como o Partido Comunista e a Izquierda Ciudadana, que não participaram da coalizão anterior com que governou Bachelet].

O Presidente Piñera, por sua vez, que estava no final do mandato, lamentou a rejeição à Lei pelo Congresso e afirmou, com sua característica hipocrisia, que a Lei Hinzpeter buscava apenas “fortalecer a liberdade de expressão e o direito das pessoas a se manifestarem sem violência”, estabelecendo “melhores instrumentos para lutar contra a delinquência e para proteger melhor as pessoas inocentes”.

Derrotar a “Lei Beltrame” e a “Lei José Eduardo Cardozo”, as “Hinzpeters” brasileiras contra os protestos

Qualquer semelhança entre o discurso de Piñera, o mega empresário de centro-direita, e Dilma Rousseff, a ex-comunista que faz um governo de coalizão de centro-direita, não é mera coincidência. Uma das maiores evidências de que o governo Rousseff não aproveitou a janela aberta por junho para se livrar da governabilidade conservadora é justamente sua defesa aberta e explícita do recrudescimento da repressão às manifestações populares.

No Chile, a luta popular conseguiu impor a rejeição da “Ley Hinzpeter”. Inspiração importante para, aqui no Brasil, derrotarmos a “Lei Beltrame”, que o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro propôs ao Senado, ou a “Lei Cardozo”, que o Ministério da Justiça está terminando de preparar para enviar ao Congresso. Em maior ou menor grau, ambas – entre várias outras que tramitam no Legislativo – buscam ampliar a repressão policialesca contra manifestações populares. A aprovação de qualquer uma delas seria um grave atentado contra a democracia.

Nem tudo é machismo. Mas muita coisa ainda é.

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O CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) produziu diversas peças publicitárias (http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/conar-mostra-males-de-palhaco-e-do-arroz-separado-do-feijao) com o intuito de questionar o excesso de algumas reclamações que lhes são feitas.  O objetivo, ao que parece, são dois: 1) mostrar que há um órgão que regula a propaganda; e 2) que existem profissionais aptos a fazerem essa análise, vide o fim dessas peças: “confie em quem entende”.

Para melhor ilustrar seus sentimentos, o Conar utiliza-se do “humor” para fazer referência ao exagero nas reclamações de grupos específicos. Numa dessas peças “hilárias”, um casal se encontra em um restaurante prestes a comer uma feijoada. Antes de iniciarem, porém, chamam o garçom. Ao chegar, o atendente é indagado pelo homem se a separação entre o feijão e o arroz é devido aos sentimentos racistas do restaurante. A mulher, por sua vez, reclama pelo fato de a couve ser o único alimento “feminino” na mesa. Não satisfeita, reclama também do paio, devido à “evidente conotação sexual” do alimento “fálico”. A propaganda segue para dizer que o Conar recebe diversas reclamações por dia. Algumas justas e outras, nem tanto. Tudo isso para fazerem seu apelo final: confiem em quem entende, confiem no Conar.

É fato que existe exagero nas reclamações dos mais diversos lados da sociedade. Em vários momentos, nossas visões estão tão embriagadas de um sentimento específico que somos incapazes de enxergar a situação de modo mais amplo, mais justo. É preciso entender, pois, que nem sempre nosso ponto de vista é o de todos. Que, aliás, nem tudo que enxergamos está ali daquela exata forma, daquela exata maneira. Mas é partindo dessa mesma compreensão que se torna ainda mais evidente que as reclamações dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos violentados e dos oprimidos são relevantes. Porque são vozes excluídas. Vozes, aliás, tratadas como se fossem do “excesso”, do “surreal”, de uma vontade de ver aquilo que não existe.

Percebam que o CONAR, de forma bastante inteligente, utiliza do exagero para nos chamar a atenção para a necessidade de relativizarmos algumas coisas. Nem sempre o paio tem conotação sexual. Nem sempre a cor de um alimento significa algo tão bizarro quanto o racismo. É verdade. Nem sempre. A primeira premissa é corretíssima. Mas ela esquece algumas coisas. Por exemplo, a mulher é tratada como objeto em comerciais de cerveja. Sempre. Porque se pressupõe que quem bebe cerveja é o homem. Porque se pressupõe que uma mulher com medidas x e y apetece o consumidor (masculino). Porque se pressupõe que a mulher, assim como a cerveja, faz parte do jogo da diversão masculina. Assim como a cerveja, a mulher está ali para ser consumida. A mulher combina com cerveja da mesma forma que uma carne vai bem com um vinho.

A utilização do exemplo exagerado contribui para o senso comum de que as reclamações feministas sobre esses comerciais são fruto de um exagero. Que não há nada de anormal num comercial que apenas retrata o que de fato acontece: homes gostam de mulher bonitas e de cerveja. Isso acaba sendo irresponsável e, querendo ou não, beneficiando um lado da balança. Um lado que sempre ditou as regras e continua ditando.

Segundo dados do Fórum Econômico Mundial (http://exame.abril.com.br/economia/noticias/educada-brasileira-nao-tem-espaco-no-mercado-de-trabalho)  o Brasil está na 117ª posição – de um total de 136 países – no quesito de igualdade salarial entre homens e mulheres. É dizer: no Brasil, além de haver nítida desigualdade material entre homens e mulheres (pra dizer o mínimo), é normal que o mercado econômico acabe se voltando quase que completamente à mente masculina. Vejam, até quando existem comerciais para a “mulher-consumidora”, eles sempre ressaltam os atributos que ela, a mulher-objeto, possui para atrair o homem. Óbvio. Na cabeça de alguém com dados, o mais provável é que uma mulher compre apenas o que seu “macho-provedor” permita.  Num cenário desses, apontar o dedo para quem reclama é nitidamente uma forma de enviesar o debate. E não de nivelá-lo.

O CONAR acaba ilustrando, magistralmente, algo que o sociólogo Pierre Bourdieu nos ensina em 150 páginas sobre a dominação masculina. O CONAR precisou de 30 segundos.  O que o sociólogo e o CONAR nos mostram é como nossa sociedade utiliza de dualidades que não guardam nenhuma relação com o que se busca afirmar para justifica-las. Isto é, utiliza-se a diferença de cor em alimentos para, consciente ou inconscientemente, dizer que a diferença de cor dos indivíduos é tão banal quanto essa diferença entre arroz e feijão. Banaliza-se a diferença entre gêneros como se fosse um detalhe de regra gramatical. Banaliza-se a luta feminista como se ela fosse encampada por loucas, chatas ou encrenqueiras (qualquer semelhança com o esterótipo de toda mulher que tem personalidade forte na sua vida não é casual). Tudo isso utilizando-se da diferença entre “a” couve e “o” feijão, ou “o” arroz.

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Apenas um beijo gay no horário nobre?

por Fábio Felix*

O assunto mais comentado das redes sociais, seu impacto e reflexos geram curiosidade e fomentam o debate em toda as esferas. Apenas um beijo gay no horário nobre? Talvez não! É preciso nos debruçarmos sobre seu impacto e reais desdobramentos. O beijo entre dois homens ocorrido na última sexta-feira (31) na novela global em pleno horário nobre é uma novidade que pode cumprir um papel simbólico importante. O significado da naturalização, mesmo que parcial, de uma demonstração afetiva de uma orientação sexual divergente/minoritária refém de violência sistemática no Brasil pode ser um sintoma de avanço e algum nível de superação paradigmática. Não que o beijo em si tenha este significado, mas ele é parte de um processo.

O confronto ideológico em torno da pauta LGBT tem se acirrado no último período, com a organização cada vez mais empoderada dos setores “fundamentalistas” e conservadores, e com a dificuldade do movimento LGBT de dar respostas para além da institucionalidade. Este conflito tem evidenciado cada vez mais violência, crimes homofóbicos, transfóbicos e aumentado a polarização social no que se refere às pautas libertárias, não limitadas ao campo LGBT.

A demonstração de um beijo na noite de sexta-feira parece que teve um significado de libertação, coragem para muitas LGBTs brasileiras. Comentários de “vamos às ruas”, comemorações, sentimento de conquista foram latentes na nossa comunidade que sofre em pleno 2014 uma confrontação social com resquícios inquisitórios. Este sentimento complexo gerado não pode superestimar os efeitos do acontecido, mas, também, não deve ignorar suas possibilidades. Talvez o fato possa significar mais esperança e combustível na luta contra a opressão e pela livre expressão da sexualidade. 

Cristiano Lucas Ferreira, militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, fez um resumo importante do resultados incertos do ocorrido em seu texto Um beijo

E o que irá mudar se houver o beijo na novela? Bom, pelo que sei, nada! As travas, bichas e sapas continuarão a serem assassinadas com violência, continuaremos sendo piada sem graça do Zorra Total e similares, expulsos/as de casa, das escolas ou dos hospitais, vítimas de todas as formas possíveis de violência além de temas de sermões em púlpitos ou palanques. Mas num país, alfabetizado pela TV, retratar dois homens se beijando não é só um espetáculo, é também, pedagógico.” (Texto publicado na página da Cia Triângulo Rosa no Facebook)

Beijo gay

Beijo de Félix na novela global

A Globo é progressista?
Óbvio que a existência de um beijo gay, demonstração tão trivial de afetividade ou desejo, não deve nos iludir que a Rede Globo tenha se tornado uma aliada nesta pauta ou que ela tenha algum compromisso com lutas que enfrentam o conservadorismo. Pelo contrário: a Rede Globo, uma das maiores emissoras de TV do mundo, continua sendo parte da comitiva de frente das diversas opressões de classe, raça e gênero no Brasil. Novelas, programas e toda uma linha editorial construída para manter o andar de baixo calado e subserviente aos interesses das classes dominantes. Legitimação de uma política econômica devastadora para a população, difusão de toda forma de preconceito racial, um reforço a diversas práticas machistas e também homofóbicas. 

A lógica do mercado rege os interesses desta empresa, então sua sensibilidade para o tema tem relação com números e a abertura de um “diálogo” com um mercado em ascensão no Brasil. A indústria do entretenimento LGBT, as festas que faturam milhões no Brasil, o circuito das Paradas do Orgulho e etc.

Neste sentido, elogiar o beijo ocorrido na programação da Globo deve levar em conta uma análise mais complexa, que trata os fenômenos não como concessão ou possível aliança, mas enxergar a profunda pressão ocorrida nas últimas décadas que foi capaz de criar a correlação de forças para o acontecido. Ou seja, o poder popular é um elemento marcante nestas variações editoriais adotadas. 

Basta nós lembrarmos o que ocorreu nas manifestações de junho, quando, após a ida de milhões às ruas, ouvimos Arnaldo Jabor pedindo desculpas e a TV Globo junto com outras emissoras poderosas protagonizando um giro ideológico de alta rotação. Não devemos nos enganar, a Globo continua sendo um forte instrumento de alienação popular. Há ainda a tentativa desta de retomar o diálogo com “setores descontentes” com a mídia brasileira. Quem não se lembra dos carros de TV apedrejados e queimados em junho de 2013? Tem crescido na população um sentimento cada vez maior de desconfiança com a mídia, e estes momentos podem servir para “quebrar o gelo”. Esta avaliação não esvazia o beijo de seus significados.

O enfrentamento ao fundamentalismo
Desde a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, temos nos preocupado com a organização deste setor político fundamentalista, que reúne, entre outros, o Pastor Silas Malafaia, Marcos Pereira e o Deputado pró-ditadura Jair Bolsonaro. Um possível sinal de avanço não pode nos fazer arrefecer a resistência e organização para enfrentar politicamente os sórdidos argumentos levantados por eles. Felizmente eles não representam a maioria dos evangélicos e católicos brasileiros. Aqueles com maior densidade teológica não se sentem, da mesma forma, representados por estas lideranças. 

Declarações do Pastor Caio Fábio e do Padre Fábio de Melo representaram uma diferença clara de quais são os fundamentalistas e intolerantes e quem são aqueles com que há possibilidade de constituir algum diálogo democrático dentro das contradições e diferenças de concepção. Estes dois citados tratam a questão LGBT com mais respeito aos direitos civis e criticam a postura extremista e oportunista das lideranças de Malafaia e Feliciano.

Portanto, o desafio de construir novas estratégias da luta sexodiversa, ampliar a mobilização pelo casamento igualitário, por programas anti-homofobia e por uma sociedade que respeita a diversidade deve continuar nos movendo. Devemos espalhar esta necessidade e reforçar que as poucas vitórias que tivemos vieram da nossa luta e organização coletiva.

Um beijo para Dilma e Agnelo
A cena da novela e os milhões de beijos trocados todos os dias entre casais do mesmo sexo devem servir para lembrar a Presidenta Dilma de suas opções. Em nome do que se chama de governabilidade a presidenta deixa claro que prefere se aliar com os setores mais atrasados da religião, ao rifar as medidas de garantia de direitos para LGBTs no Brasil, realizar acordos em torno da retirada do PL 122 de pauta no Senado, extinguindo o Programa de educação para a diversidade nas escolas e deixando os programas de combate à homofobia no Brasil em completo abandono. Da mesma forma, o Governador do DF, Agnelo Queiroz, menos de 24h depois de publicar a regulamentação da lei que previa punições administrativas para práticas homofóbicas em estabelecimentos comerciais, revogou a decisão. Voltou atrás por pressão do fundamentalismo e mostrou claramente de que lado está.

Nossa tarefa é politizar o debate do beijo trazendo a reflexão crítica sobre a coalização governante brasileira que privilegia a aliança com o fundamentalismo, apontar os limites de um movimento LGBT que mantenha vínculo orgânico com os governos e não aposta na luta social, construir novos movimentos combativos para a disputa dos rumos da luta LGBT, e aliar as nossas mobilizações ao desafio de enfrentar o capitalismo e as diversas opressões que ele agrava e impõe. A esquerda brasileira precisa ousar subverter a lógica heteronormativa com ações que demonstrem compromisso claro com esta pauta. Para que este beijo signifique muito mais, precisamos agir!

* Fábio Felix é militante ELA, PSOL, Assistente Social e mestrando em Política Social pela UnB