Câmara proíbe doações de empresas para campanhas eleitorais – no Chile

Giorgio Jackson (Revolución Democrática) e Gabriel Boric (Izquierda Autónoma): os dois jovens ex-líderes estudantis têm feito mandatos combativos e propositivos no Congresso chileno

Giorgio Jackson (Revolución Democrática) e Gabriel Boric (Izquierda Autónoma): os dois jovens ex-líderes estudantis têm feito mandatos combativos e propositivos no Congresso chileno

A Câmara dos Deputados do Chile aprovou, na noite de 13 de agosto, reforma eleitoral com pontos importantes para criar melhores condições para a disputa política democrática e plural no país. Sob forte pressão social, o governo conseguiu aprovar mudanças importantíssimas em regras que conformam o sistema binominal no Chile – uma espécie de sistema distrital ainda mais fechado à pluralidade do que o normal, estabelecido pelo ditador Augusto Pinochet para impedir a presença institucional da esquerda radical e tornar o sistema político super rígido (torna-se extremamente difícil conseguir quórum para mudar a Constituição outorgada por ele). Para se ter ideia de seus efeitos: um partido de esquerda que teve 10% dos votos na última campanha presidencial não conseguir eleger nenhum parlamentar. (Para entender melhor a discussão política de fundo, ler aqui a qualificada intervenção do Deputado independente Gabriel Boric, ex-líder estudantil eleito pela Izquierda Autónoma).

Surpreendente, no entanto, foi a importantíssima vitória obtida, na mesma sessão, pela aprovação do fim das “doações reservadas” e do financiamento de campanhas eleitorais por empresas. O governo de Michelle Bachelet, desde o início comprometido com o grande empresariado, não apoiava essa pauta e se esforçou para tentar impedir sua aprovação. Nas Comissões, ela tinha sido rechaçada, mas os Deputados Giorgio Jackson (outro ex-líder estudantil, eleito de modo independente pela Revolución Democrática) e Vlado Mirosevic (também eleito de modo independente pelo Partido Liberal) conseguiram articular sua reapresentação e aprovação no plenário da Câmara. Somente a UDI, partido da direita mais conservadora, pinochetista, colocou-se explicitamente contra. A proposta foi aprovada por um voto. A batalha segue, agora, no Senado.

No sistema eleitoral chileno, plasmado pela ditadura neoliberal de Pinochet, chama a atenção a bisonha possibilidade legal das doações secretas, reservadas ou anônimas para as campanhas eleitorais. Grandes empresas doam milhões de dólares para partidos e candidatos, e o eleitorado simplesmente não tem o direito sequer de sabê-lo. É inacreditável, mas é isto mesmo – ver aqui excelente matéria do sempre informativo Ciper. Não se trata simplesmente de não se saber para qual candidato vai o dinheiro: não se conhece sequer o partido ou coalizão no qual a empresa investiu… Sabemos simplesmente quanto cada empresa doou, mas não para quem; conhecemos também a quantidade de fundos “reservados” recebidos pelas campanhas, mas não de onde vêm. Temos a informação, por exemplo, de que as empresas responsáveis pelo megaprojeto HidroAysén, de produção de energia – e que depende bastante de influência política para superar as fortes restrições socioambientais que enfrenta -, doaram 4 milhões de dólares na última campanha, mas não sabemos para quem (podemos supô-lo…).

Segundo o jornal La Tercera, a Câmara aprovou o fim desse tipo de doação, e avançou também para estabelecer a proibição do financiamento empresarial de campanha, devido à pressão popular. Muitos Deputados votaram nisso a contragosto, movidos pelo temor do desgaste junto às suas bases, dado que os movimentos sociais de perspectiva antineoliberal têm apresentado grande capacidade de convocação e de agendar o debate público no Chile nos últimos anos.

Na torcida para que o Senado não desperdice a oportunidade de consolidar esse salto do sistema político do Chile, no sentido da redução do poder econômico na política e da superação parcial do legado autoritário de Pinochet, fechado à pluralidade e à participação popular.

Aqui no Brasil, superar a influência do poder das empresas nas campanhas eleitorais é também uma vitória a ser conquistada no próximo período. A consolidação da vitória já anunciada no STF, e o impedimento de que seja desfeita no Congresso Nacional, só será possível com muita mobilização social.

Ver também, aqui no blog:

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Antonio Ermírio de Moraes: um capitalista do século XX no Brasil dependente

Antonio Ermirio de Moraes

 Por Edemilson Paraná*

Disciplinado e austero. Voltado para investimentos sólidos e de longo prazo de maturação, de perfil conservador nas apostas de negócio. Assim o homem geriu e fez crescer um dos maiores impérios industriais da América do Sul.

Ao nos deixar aos 86 anos de idade, o bilionário da Votorantim, uma espécie Rockfeller tupiniquim, leva com ele a ilusão que nunca foi capaz de se consolidar de fato nesse Brasil dependente: um industrialismo promotor de renda e emprego a partir do investimento direto e de apostas em conhecimento e tecnologia para a promoção de uma social-democracia tropical. A expressão torta desse sonho que teve diferentes ecos no Getulismo, em JK e no Nacional-desenvolvimentismo, além de nunca ter ultrapassado de modo substancial a industria de base (como é o caso da própria Votorantim), ruiu nos últimos 20 anos em privatizações, aberturas de capital, fusões, “flexibilizações” e tantos outros capítulos da desindustrialização brasileira que, ironicamente, avançou justamente nas mãos de um governo de retórica popular-industrializante. É que o buraco da reprimarização é mais fundo: trata-se de uma tendência mundial (com exceção, claro, dos países que exploram mão-de-obra semi-escrava e são, sobretudo por isso, justamente o receptáculo da onda de reestruturação produtiva dos últimos 30 anos).

Tudo somado, o Brasil do século XXI não parece ser mais um lugar para empresários “old school” como Ermírio de Moraes. Corretamente temerário em relação ao curto-prazismo que ajoelharia seu complexo industrial aos caprichos da finança, o “velho” sempre foi contra abertura de capital da empresa, caminho que parece inevitável, mas também, bobo que nunca foi, tratou logo de criar seu próprio banco. É que estamos na era da “governança corporativa”, dos conselhos de acionistas e seus CEOs – que recebem bônus em ações e raramente tem comprometimentos reais com o futuro das companhias, e dos industriais que especulam eles mesmos com câmbio e outros ativos (vide o caso Sadia/Perdigão) nos mercados financeiros para incrementarem seus ganhos em tempos adversos. Nesse capitalismo patrimonial, onde o que importa é garantir retornos rápidos em formas de juros, dividendos e aumento de ações negociadas em bolsa, o investimento de longo prazo – sem o qual qualquer avanço real não pode acontecer – encontra terreno árido.

Tal solo torna-se mais fértil, no entanto, para a espoliação do trabalho e da natureza, para o avanço do agronegócio exportador (ele mesmo girando a ciranda de valorização financeira), para o baixo crescimento real, desemprego e crises.

Assim, gritando pelo aumento das taxas de juros, por mais arrocho e aprofundamento do “tripé macroeconômico” nas eleições de 2014, é que o capitalismo financeirizado brasileiro presta suas últimas homenagens a um dos poucos dinossauros industriais que ainda que restavam.

*Edemilson Paraná, vice-presidente do PSOL-DF, é jornalista e mestrando em Sociologia pela UnB.

Marina Silva: desestabilização ou renovação do pemedebismo?

BeDMarina

A ELA, então B&D, promoveu debate com Marina na UnB, em 2010. Assista aqui: http://migre.me/ldknk

 
A irrupção de Junho e a ampliação do espaço para novas lideranças políticas
 
A irrupção de Junho não evidenciou somente a crise das instituições representativas brasileiras ou do sistema político formal. Entre outras tantas lições, escancarou também que não existe nenhum setor político organizado que seja socialmente reconhecido no Brasil, hoje, como capaz de canalizar a insatisfação com a institucionalidade política e com os limites e contradições do modelo de desenvolvimento em curso.

O PT exerceu esse papel ao longo de décadas, mas em Junho ficou explícito que a estratégia conciliadora, a burocratização e os anos no governo fizeram o partido perder, em larga medida, tal capacidade. A multidão que foi às ruas em junho, sobretudo de jovens, não estava protestando contra o governo Dilma ou o PT, simplesmente; mas tampouco identificava nesse partido uma alternativa que expressasse, no conteúdo e na forma, seus anseios – ainda que “difusos” – de radicalização democrática. Podem até encontrar no PT e seu governo um meio para melhorar de vida, mas dificilmente veem no partido uma alternativa para mudar o sistema, ou de uma nova práxis política, aberta à reinvenção pelos novos sujeitos em ação nas redes e nas ruas.

Alguns movimentos – como o MPL e depois o MTST – conseguiram maior exposição e reconhecimento, mas nenhum é amplamente visto por parte expressiva da população, por ora, como uma alternativa real de poder, ou de mudança do poder em escala nacional. Já as velhas vanguardas autoproclamadas tornaram-se, em geral, ainda mais patéticas, pelo abismo entre suas pretensões e sua baixa capacidade de servir como alternativa real de expressão e organização da revolta popular.

Quando amplas camadas da sociedade buscam ansiosamente o “novo” na política e não conseguem encontrá-lo em nenhuma referência coletiva organizada existente, abre-se um terreno fértil para que lideranças individuais assumam essa função, representando e mobilizando os anseios sociais de mudança política. Há quem interprete que foi numa situação até certo ponto análoga que se produziu a ascensão política de Hugo Chávez na Venezuela, por exemplo, no final da década de 1990.

Em Junho, vieram à tona com mais força algumas tendências que já se manifestavam antes, e que se tornaram ainda mais significativas e irrefreáveis a partir da nova qualidade adquirida pela conjuntura após a irrupção. A projeção de Marina Silva como liderança individual capaz de canalizar os anseios por mudanças na política e da política é uma dessas tendências que foi amplificada.

Se é ruim um indivíduo ter tanto peso assim no estímulo e canalização das esperanças e energias de mudança? Estou entre quem pensa que o ideal é que organizações coletivas e democraticamente organizadas exerçam esse papel. Não me filio, porém, às críticas abstratas e idealistas que condenam o “personalismo” como mal em si. Lideranças individuais, por vezes, cumprem um papel que referências coletivas não têm capacidade de desempenhar em dado momento. O processo pode se tornar virtuoso, e superar paulatinamente suas próprias contradições, caso a legitimidade e a energia mobilizadora desses indivíduos consiga ser canalizada para o fortalecimento de lutas coletivas organizadas desde baixo. Isso depende, obviamente, não apenas desses indivíduos – embora também deles, afinal são chave central nesse tipo de situação -, mas igualmente da capacidade de coletivos organizarem-se e fortalecerem-se a partir do que o/a líder simboliza, mas indo além dele, mediante um processo de expansão e ressignificação coletiva insurgente.

Marina Silva tinha e tem diante de si, portanto, uma grande oportunidade. A de impulsionar, a partir da projeção que adquiriu, uma agenda de mudanças reais ancorada em discurso de antagonismo capaz de mobilizar(-se com) amplos setores da sociedade para a luta política transformadora – como conseguiu fazer na Venezuela, até certo ponto, Hugo Chávez. Não parece ter sido esse, porém, o rumo que ela optou tomar até aqui, como veremos.

A potência do símbolo Marina Silva

Marina é um poderoso símbolo de mudança política. Depois de Lula, não apareceu outra personalidade, no Brasil, com potência sequer próxima à dela, da sua extraordinária capacidade de representar anseios e mobilizar esperanças por transformações na política e na sociedade.

Mulher, negra, acreana de origem muito pobre, alfabetizada aos 16 anos, companheira de luta de Chico Mendes em defesa dos povos e trabalhadore(a)s da Amazônia na década de 1980, defensora do meio ambiente, ex-Ministra de Lula, evangélica…

Cada uma dessas identidades portadas por Marina, e outras mais, que se inscrevem não somente em sua história, mas em seu corpo e em seu estilo, une-se para formar um amálgama que gera identidade ou fascínio entre milhões de brasileiros/as. A isso soma-se seu discurso arejado e democrático sobre a “nova política”, feita em rede, mediante ativismo autoral, (ou coautoral), etc. Eu mesmo não nego que pertenço ao grupo sobre quem o símbolo Marina Silva, assim como o Lula, exerce certo nível de fascínio (embora não os idealize, e apesar de todas as fortes diferenças políticas que tenho com ambos, hoje).

Dentre os diversos componentes da identidade e do símbolo Marina Silva, sua fé evangélica provavelmente é o mais polêmico, em especial na esquerda. Alguns setores parecem avaliar, implícita ou até explicitamente, que se é evangélica (ou de determinada vertente protestante específica), logo é conservadora… Curiosamente, a mesma associação automática pejorativa raramente é feita sobre políticos católicos, apesar do conservadorismo desta instituição e de sua grande força nos três Poderes da República – não haveria, aí, certo elitismo, já que há muito mais evangélicos/as entre os/as pobres?

Eu gostaria de viver num país em que a fé transcendental (ou a ausência dela) e a religião não interferissem no julgamento político que se faz de alguém, ou na capacidade de diálogo social de uma figura pública. Infelizmente, porém, não é assim, e é preciso lidar, na política, com as contradições da vida real, sem abrir mão de nossos princípios e ideias. Nesse contexto, sempre achei politicamente interessante o fato de Marina ser evangélica. Como já disse, não acho que isso implique, automaticamente, conservadorismo. Mas amplia, quase automaticamente, sua capacidade de dialogar e representar um setor da população brasileira que, além de grande e crescente – em especial entre os/as mais pobres e a nova classe trabalhadora (a mal chamada “nova classe média”) – , parece bastante organizado em comunidades de base, o que potencializa sua força política. E nessa organização de base provavelmente há muito mais multiplicidade e auto-organização do que imagina certa esquerda que emite juízos sem investigar a realidade.

Nunca vi como defeito o fato de Marina ser evangélica, mas como elemento amplificador de seu potencial político, que poderia fazer muita diferença positiva a serviço de causas de radicalização da nossa democracia. Um elemento que poderia ajudá-la a se conectar às redes da “nova classe trabalhadora”, estimular suas lutas e sua auto-organização política desde baixo, em sentido emancipador. 

As ideias conservadoras de Marina Silva

O problema não é qualquer aspecto simbólico da identidade de Marina, nem sua fé religiosa (muito antes pelo contrário). O problema é que ela optou por defender um conjunto de propostas conservadoras para o Brasil. “Autonomia” do Banco Central (o que significa dizer: entregá-lo de vez para ser gerido por tecnocratas alinhados com os bancos e grandes atores do mercado financeiro); continuidade do “tripé” da política macroeconômica vigente há vinte anos e que privilegia as classes mais abastadas; zero enfrentamento ao monopólio da mídia; posições conservadoras sobre direitos das mulheres e LGBTs; posições no mínimo ambíguas sobre diversos temas – inclusive meio ambiente -, conforme já advertia Edemilson Paraná em texto do início do ano passado.

É verdade que em inúmeras questões – inclusive nos temas políticas para mulheres e LGBTs -, as posições de Marina não são piores do que as políticas do governo Dilma (embora chegue a ser pior em um tema central, política macroeconômica, com sua defesa da “autonomia” do Banco Central, isto é, da ditadura do capital financeiro nesse órgão). Mas, é esse agora o parâmetro?! E mesmo com esse padrão rebaixado de comparação, fica difícil concluir que um governo Marina seria consideravelmente superior (ou inferior…).

“Marineiros/as” argumentam que é preciso “fazer concessões à governabilidade” para chegar à Presidência e promover algumas mudanças, assim como fez Lula. Mas Marina cedeu tanto, em tantos temas, que fica difícil dizer o que sobra… Qual compromisso concreto Marina assumiu, que a torne uma alternativa com algum conteúdo real de mudança?! Custo a encontrar.

Dizer que vai “cuidar da segurança” e “melhorar a saúde” (como Marina afirma na propaganda na TV) é um insulto… Até mesmo a defesa do passe livre estudantil é muito pouco, por sua vagueza. Até Renan Calheiros apresentou, em 2013, um Projeto de Lei para garantir o passe livre. Quero saber é segundo qual modelo de gestão e financiamento Marina implementará essa e outras políticas. Já sabemos que ela não vai mexer nos juros, pois dará “autonomia” ao Banco Central; logo, eles continuarão consumindo gigantesca fatia do Orçamento Público. Marina vai retirar os recursos de outros investimentos sociais? De quais? Vai produzir novos retrocessos nos direitos de aposentados/as? Ou tentará instituir, no Congresso Nacional, o Imposto sobre Grandes Fortunas e aumentará as alíquotas sobre grandes empresas, tal como propõem o PSOL e outros setores da esquerda? 

Marina Silva: renovação do pacto pemedebista?

A debilidade central da candidatura Marina Silva não é, porém, a proposta A ou B. Os recuos nas propostas são sintomas importantes do déficit mais grave, que é a estratégia política de Marina e de sua Rede.

O cerne do discurso e da estratégia/tática de Marina é o seguinte: (i) produzir “união” entre empresários, ambientalistas, trabalhadores/as, movimentos sociais… Enfim, fazer um governo de conciliação e busca do “consenso”; (ii) isolar os partidos “fisiológicos”, principalmente o PMDB, e fazer um governo “dos bons”, com direito a um realinhamento entre PSDB e PT, pondo fim à polarização que já dura vinte anos.

Marina poderá até governar sem o PMDB, mas o pemedebismo não morrerá junto. O elemento central do pemedebismo é justamente a negação da polarização, afirma Marcos Nobre, o cientista político que criou esse conceito para interpretar nosso sistema político-partidário (ver aqui). O que Marina promete é justamente isso, sob a falácia do velho discurso da “união nacional” que esconde os conflitos e termina por manter tudo como está, em suas grandes linhas.

Como bem disse Paulo Tayur, “não há nada mais ‘velho’ na política do que o discurso da ‘união de todos’. Nada mais velho – justamente por negar o conflito, as divergências e a luta entre desiguais – do que pregar uma falsa união, ou acusar adversários de ‘dividirem o país’. O problema de PT e PSDB não é que ‘dividem o país’, e sim o fato de serem muito mais iguais do que dizem ser, criando uma polarização muitas vezes falseada. Marina nega a polarização não pela exposição do que ela tem de falso, mas sim pelo contrário: dizer que não deveria haver polarização alguma”.

O PMDB certamente é adversário da sustentabilidade e do aprofundamento da democracia no Brasil, as duas bandeiras de Marina. Porém, também o são o PSDB, o DEM, o PSD, o PPS, além de dezenas de outros partidos e de amplos setores do próprio PSB, que abriga Marina (basta lembrar Bornhausen do PSB-SC ou Pastor Eurico do PSB-PE)… A questão não é a sigla A ou B. Os partidos, mais do que “bons” e “éticos” ou “maus” e “fisiológicos”, expressam interesses de classes e de grupos sociais. Quais classes e outros grupos Marina se dispõe a enfrentar? A resposta que ela dá sistematicamente, mediante seu discurso renitente e suas propostas é: nenhuma classe. O que significa dizer: vai ‘sobrar’ para as classes com menos poder na política institucional de hoje: as mais pobres.

As transformações profundas de que o Brasil precisa – desmilitarização da segurança pública, reformas urbana, agrária e política, democratização das comunicações, mudança da economia orientada pela transição energética para fontes renováveis e socialmente justas, etc – não nascerão de dentro do sistema pemedebista, ou de um mero rearranjo interno dele, de sua repactuação, que é a grande estratégia de Marina.

Por isso, fica difícil imaginar como um eventual governo seu corresponderia minimamente às esperanças de mudança nela depositadas. Mais ainda, não vejo razão para crer que a dança das cadeias que ocorrerá entre os ‘grandes’ partidos, caso ela seja eleita, terá algum impacto transformador ou de abertura democrática. Pelo contrário, parece aprofundar a lógica de pasteurização da política institucional brasileira.

Há quem ache que Marina deve ser apoiada, apesar de tudo, porque seu simbolismo mobiliza energias transformadoras da sociedade brasileira. Ora, mas mobiliza sem apresentar como caminho para essa energia o conflito social, mãe da democracia real… Sem articular o discurso, as subjetividades e as lutas para enfrentar os principais adversários da nossa democracia – pelo contrário, o discurso e a prática é de aliança com eles. Trata-se de uma mobilização que pode, então, acabar cumprindo um papel conservador, por desidratar outras vias, institucionais e não institucionais (sobretudo as últimas, hoje), que possam constituir força transformadora efetiva, não porque possam ganhar as eleições deste ano, mas porque contribuem para reinstalar e fortalecer na política as principais e diversas linhas de antagonismo social produzido desde baixo. Existe até mesmo o risco, por aprofundar a lógica de não-polarização, de Marina contribuir não só para a renovação, mas para o aprofundamento do pemedebismo.

Defendo a importância de se disputar as eleições a sério, mas para contribuir ao fortalecimento e articulação das lutas sociais para se expressarem com todo o seu vigor e conflitividade em todos os terrenos da política, e não para integrá-las ao sistema de modo domesticado e subordinado aos interesses dos nossos principais adversários na sociedade.  

A energia desestabilizadora de Marina Silva: esvaziar o discurso do medo

A estratégia política de Marina Silva e de sua Rede não me empolgam nem um pouco, portanto. Não acho que o caminho para produzir democracia real para o Brasil esteja por dentro do sistema pemedebista, na sua renovação ou rearranjo, que é a opção de Marina. Prefiro apostar em vias de polarização com os donos do poder, e não de conciliação subordinada a eles. Essas vias podem parecer mais longas, mas me parecem muito mais eficazes do que supostos atalhos que nos fazem gastar energia para caminhar em círculos e continuar no mesmo lugar, com pequenos ajustes.

Parece-me inequívoco, porém, que há algo de bastante positivo que Marina já trouxe com muita força para a campanha: a forte desidratação do PSDB como possível alternativa para a Presidência. Caso se confirme que os tucanos não passarão ao segundo turno, essa é uma grande contribuição viabilizada pelo fenômeno Marina, conforme argumentou Bruno Cava.

O PSDB só oferece possibilidades de continuidade e retrocesso, então é positivo que isso seja afastado da Presidência. Por mais que nas coalizões de Dilma e de Marina também seja difícil vislumbrar uma agenda de transformações reais, me parece que o PSDB está realmente em outro patamar, pois seu conservadorismo é muito mais homogêneo, não existem fissuras como as que há (mesmo que relativamente pequenas) nas bases do PT e de Marina.  

Além disso, e possivelmente mais importante, Dilma X Marina no segundo turno esvaziará, em grande medida, o discurso medíocre e conservador que o PT tem utilizado nas eleições há muitos anos: o discurso do medo, de que seria preciso votar em Dilma porque a alternativa é o retorno do passado, o fantasma do PSDB. Enfrentar Marina pressionará o PT a sair da zona de conforto, de sua posição que se contenta com acenar apenas para a continuidade do atual arranjo neodesenvolvimentista e de sua governabilidade conservadora. Talvez Marina e o PT busquem abraçar-se ainda mais à direita, mas de qualquer forma essa possibilidade já seria forte numa disputa Dilma X Aécio (como já aconteceu em 2010). Mas com Dilma X Marina, abre-se a chance, ainda que pequena, de ambas serem estimuladas a apresentarem alguma agenda transformadora. Isto é, talvez ocorra algum alargamento mínimo, por dentro do PT e da base de Marina, para o fortalecimento de setores ‘mudancistas’ (pois prefiro não utilizar a expressão ‘progressistas’).

Não sou nada otimista de que isso se processará de modo significativo por dentro do PT ou da Rede – o recuo da campanha de Marina no tema da democracia participativa é um dentre tantos sinais eloquentes. Avalio, porém, que a ausência do retorno do fantasma tucano como liderança do polo alternativo aumentará o espaço para que outras forças políticas, ao invés de terminarem se apresentando ou sendo percebidas como linhas auxiliares do continuísmo, apresentem um projeto alternativo, por fora e em contraposição à geleia geral do sistema pemedebista.

O enfraquecimento do medo do retrocesso como afeto na política implica a oportunidade de empoderar alternativas de mudança radical da sociedade brasileira. Para tanto, nós, que apostamos pela rota desde abajo y a la izquierda, devemos seguir cumprindo, na disputa eleitoral, o papel de repercutir os antagonismos produzidos pelas lutas sociais e servir à sua articulação, polarizando com os atores do sistema sem nos reduzirmos à posição estéril de linha auxiliar de qualquer um deles.

PS: a produção deste texto foi influenciada pelo diálogo com Bruno Cava e Idelber Avelar (o que não quer dizer identidade de pensamento sobre o assunto). Agradeço também a Octávio Torres por sua contribuições.

“Sionismo cristão” X Cristianismo pacifista

israel copacabana

O Sol saiu no Rio hoje, após dias nublados. Em Copacabana, porém, o tempo fechou: dei de cara com uma sombria marcha sionista, em “apoio a Israel”. Empunhar a insígnia da Estrela de Davi em meio a mensagens macabras de “paz a Israel” (e nada em solidariedade à Palestina), no contexto atual, não está distante de exibir suásticas em passeata…

Chocado, parei um grupo de uns quatro jovens, de no máximo uns vinte anos de idade, para conhecer suas motivações para prestar apoio à matança que o Estado de Israel vem promovendo. Me explicaram que a manifestação era organizada por um pastor da Assembleia de Deus, para apoiar a terra sagrada de Israel e seu “direito de defesa” contra os terroristas do Hamas.

Nem entrei no mérito de que Israel não está se defendendo, mas atacando o povo palestino, segundo uma agressiva política de expansão colonial. Perguntei, somente, se concordavam com o bombardeio de escolas e hospitais palestinos… A resposta veio sob a forma de repugnante redundância da premissa falaciosa: “Israel tem o direito de se defender”. Acrescentando mais uma falácia: “a culpa é do Hamas, que usa o povo palestino como escudo humano”.

O chocante, para mim, não foi o tanto de desinformação… Infelizmente, há muitos segmentos sociais poderosos empenhados em produzi-la. Fiquei chocado, no entanto, em ver jovens cristãos defendendo que a arma adequada para lidar com o terror (mesmo se nisso consistisse toda a resistência palestina, o que não é o caso) é… mais terror ainda.

Não sou religioso, mas fui formado no cristianismo, e lembro de mensagens como “oferecer a outra face”. Não consigo ver Cristo senão como um pacifista radical. Como foi dar nisso aí? Nesse “cristianismo sionista”, muito forte nos EUA e que começa a crescer no Brasil, fazendo propaganda de um Estado cada vez mais afundado no fascismo?

Não podemos, porém, julgar o conjunto de pessoas da Assembleia de Deus, e muito menos das Igrejas Evangélicas em geral (ou de alguma vertente delas), com base em suas cúpulas, direções ou mesmo maiorias. Ora, se até na Igreja Católica, de estrutura dirigente muito mais cristalizada e com histórico tenebroso, aprendemos a enxergar o múltiplo, a dissociar segmentos da igreja em movimento da igreja instituição burocrática… Com o movimento protestante, que é em si abertura, multiplicidade e ruptura com autoridade dogmática, temos, mais ainda, de evitar o discurso da redução dessa força múltipla a certas identidades conservadoras. Fazer isso seria jogar o jogo das cúpulas das Igrejas, e perder a disputa sem nem entrar nela. Seria deixar de construir pontes com os setores das diversas igrejas evangélicas (inclusive das neopentecostais) que desenvolvem práticas espirituais, culturais, sociais e políticas surpreendentes, criativas e rebeldes em solidariedade e amor em ação.

A pior rendição, porque implica perda e achatamento do horizonte, é enxergar o mundo com os olhos do adversário. Sim, as cúpulas das Igrejas cristãs em geral são nossas adversárias (a começar da católica, e talvez principalmente ela), como aliás foram de Jesus. Mas não podemos aceitar as falsas linhas identitárias que contrapõem esquerda e evangélicos, ou defesa da libertação humana e evangélicos.

Não abdicar da justa raiva e indignação, mas tampouco da imaginação: as flores que nascem do asfalto ainda vão fazer a Primavera.

PS: texto do domingo, 17 de agosto, publicado originalmente no Facebook. Produzido sob a influência de diálogos com Bruno Cava.